quinta-feira, 12 de novembro de 2015

[TEXTO] Das mortes que não esperamos

 


        Eu sempre achei que tivesse medo da morte. Da dor que ela implicaria e dos eternos questionamentos que me soterravam. 
       Sempre tive medo de dores, e quando as relacionava a morte elas tomavam proporções e pesos maiores, se tornavam monstros visíveis que viriam para me destruir e eu indefesa sucumbiria a eles.
      Sempre tive medo de não sentir, de encontrar a morte no acaso. Abrir os olhos, ou mesmo não abri-los e acabar me deparando com a vida eterna. Essa surpresa nunca me agradou.
      Sempre achei que a dúvida do depois era a pior carga para carregar. O eterno negrume, a instável briga entre o bem é o mal, a questionável paz eterna, ou talvez apenas o esquecimento de um corpo gelado e nada mais... Quando se tratava do depois o tempo parava e meu corpo todo era entregue ao fogo e amparado no gelo, minhas pernas paravam de existir e eu pairava no medo e angústia. Meu estômago se retorcia de desespero. Eu tinha medo da falta de resposta para o depois, não saber as respostas era enlouquecedor.
     Eu tinha medo de tudo isso e nunca me preocupei com outras formas de morte, se não a mera morte física. Foi quando morri da pior maneira que poderia existir.
       Eu não tinha medo por minha alma, minha essência, nunca temi por ela, nem cuidei para que ele vivesse bem, apenas me limitei ao direto e deixei o intocável esquecido, esse tão pequeno e invisível  lado que fez de mim quem eu fui, me construiu de erros e aprendizagem, me deu coragem e também meus medos, me destruiu e reconstruiu tantas vezes, me fez de toda forma única e diferente. Essa pequena parte que eu acabei perdendo.
  
       No fim a morte física não é nada comparada a morte de quem eu sou/fui. Temi por tanto tempo uma morte errada e acabei sendo levada pela mais assustadora de todas. 

2 comentários:

  1. Que texto triste! Porém, bonito.
    A morte da alma, dos sonhos e dos desejos talvez seja realmente a pior morte.

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    Respostas
    1. Obrigada ><
      Infelizmente essa morte sempre acontece, e é difícil lidar com os resultados :(

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