segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Assassinato da dor



APERTE O PLAY


     A água ficava super gelada em contado com o meu rosto, esfreguei mais forte no intuito de tirar toda a maquiagem, limpar a fantasia que era obrigada a vestir todos os dias. Olhei no espelho e me senti melhor pois toda sombra, rímel e lápis desenhavam uma escuridão atraente sobre meus olhos azuis claros e bochechas rosadas, assim estava bom.
     Olhei em meu reflexo desfigurado e tentei compreender porque era tratada como a definição da perfeição para outrem. Eu dominava a obediência,  solidariedade, quietude, responsabilidade, e para melhorar era bonita. A beleza foi pura sorte, apesar de que eu a odiava. Todo resto era insignificante, quando estamos no vazio fazemos de tudo para não sermos vistos, observados. E a melhor maneira de se manter invisível é não chamar atenção.
      Amarrei meu loiro cabelo liso em um coque, daqueles que me deixam com uma dor de cabeça tremenda por estar tão apertado, mas assim eu podia ver com precisão o meu rosto. Tirei meu vestido rosa, aquele clássico mamãe vai ficar feliz, fiquei somente de calcinha e sutiã. Iria poupar um pouco de dor e vergonha para quem me encontrasse.
      Busquei por Carina Round - 'For Everything A Reason' em meu celular, a clássica música para essa ocasião especial, sempre achei que seria essa a trilha sonora para o meu fim, para a minha salvação.
      Entrei na banheira com a água escaldante, minha pele sempre ficava vermelha com rapidez devido a claridade de minha pele, eu adorava essa reação, a ação que era capaz de transformar meu corpo, mudar minha inútil carcaça. Passei a mão pelo meu braço esquerdo, desenhei com meus dedos suavemente minhas amostras de amores, minhas cicatrizes. Eram tantas, em todas as direções. Quando as fazia era um apelo para a vida, para o significado dela. Nunca odiei viver, o que eu não gostava era do vazio ensurdecedor que ela me obrigava a suportar. Não me encaixar em nada, não ser verdadeiramente boa em algo e não sentir amor ou paixão ao realizar tarefas, essa foi toda a minha vida. Quando eu me tatuava, não da forma convencional eu era capaz de sentir, sentir no corpo o que a alma e o espírito não sentiam, eles eram ocos, infelizmente. 
     Peguei no chão envolta de um paninho branco a navalha que roubara do meu pai logo de manha, antes de toda a festa, ou encenação melhor dizendo. Agora eu não iria acabar com minha vida, viver implica agir e eu apenas existia, nesse momento eu iria acabar com a dor, matar a velha e assustadora angústia sue não tinha cura, aquela que se alojava longe do físico, em um lugar intocável.
      Passei a navalha com força e precisão em cada pulso no sentido horizontal, enquanto o vermelho do meu sangue tingia a água límpida fechei os meus olhos e fui afundando.
      Chega um momento que cansamos de encenar, a imagem que passamos vai ficando borrada e se apagando, precisamos nos entregar para aquilo que queremos. E agora eu vou encontrar a verdadeira paz.

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