sábado, 8 de novembro de 2014

Daquelas duvidas que só crescem

          Ela entrou no estabelecimento apressada, visualizou uma mesa no fim do corredor, daqueles que ninguém escolhe pela falta de luz e porque os garçons parecem não perceber sua presença. Se encaminhou até o local e sentou de costas para a parede, de modo que podia ver toda a lanchonete que estava lotada. Ficou alguns instantes perdida entre o bater dos talheres nos pratos, ouvindo conversas sobre o cachorro da vizinha que destruiu as margaridas, no choro da uma criança que queria um doce, no balconista pedindo calma que logo alguém iria lhe atender.
- O que você deseja? - perguntou o garçom tirando a caneta do bolso da camisa e levando até a caderneta.
          Ela pensou sobre a pergunta, o que ela desejava? No momento ela desejava voltar no tempo, aonde havia brilho nos sonhos, naquele passado onde ela achava que odiava viver, mas que hoje faz falta.
          Onde os sonhos mais bobos de como ser atriz, conhecer gente famosa ou ir morar na lua era possível. Ela sente falta da sensação maravilhosa que sonhar lhe causava, hoje ela tem que suportar o gosto azedo que sobreviver as escolhas lhe causa. Ela achava que crescer, tomar decisões e ser adulta era bom. Mas acabou tropeçando nessa realidade nada divertida.
- Moça, qual seu pedido? - Perguntou novamente o garçom impaciente.  
- Ah me desculpa, eu quero um suco de maracujá com água, por favor!
- Certo - O garçom anota o pedido rapidamente - Mais alguma coisa?
          O que mais ela quer? Ela não quer mais morar no medo, fazer companhia constantemente a angustia. Quer encontrar prazer no seu dia a dia. Ela quer mudar, mas o medo de bater de cara nas consequências de uma escolha mal feita, ataca novamente. Ela quer escapar ou desistir, mas sabe que vai haver decepção para pessoas que confiaram nela, e ela não quer mais estragos.
- Moça?
- Só isso mesmo, obrigada.
         O garçom arranca a notinha e deixa em baixo de um potinho de flor, a deixa sozinha com seus pensamentos estranhos.
          Ela adora ir naquele lugar e tomar seu suco preferido, suco de maracujá  lembra sua casa, o conforto de uma família que ela não vê faz meses, e sente aquela saudade que lhe aperta o peito novamente. Ela acha que exagera demais, pois como os outros falam, nem vinte anos ela tem, ela pode fazer o que ela quiser. Mas é isso que lhe deixa assustada, ela não sabe o que quer, apenas suporta o que a vida lhe oferece, sendo bom ou não.
          O suco chega geladíssimo daquele jeito que ela gosta, para amortecer um pouco o calor insuportável que ela detesta. Bebe todo em um gole e vai pagar a conta com suas moedinhas contadas.
         E assim vai embora com as mesmas angustias e duvidas que chegou.

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